24 de agosto de 2006

AFRO-LITERATURA BRASILEIRA

O que é? Para quê? Como trabalhar?

por Ana Lúcia Silva Souza, Andréia Lisboa Sousa e Rosane de Almeida Pires*
(08/03/2005)

Escrevemos este texto em março, quando se comemora o Dia Internacional das Mulheres. Dedicamos a todas elas, em especial às nossas mães, sábias, contadoras de histórias, leitoras do mundo.

A leitura da literatura infanto-juvenil pode contribuir com a promoção da igualdade étnico-racial em ambientes educativos. Esta é uma das bandeiras há muito levantadas por ativistas do movimento negro, educadores (as) e pesquisadores (as) envolvidos (as) com o assunto. Atualmente a discussão ganha densidade mediante a aprovação da Lei 10639/2003 e do Parecer CNE/CP 003/2004, documentos que instituem a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nos currículos de Educação Básica.

Tomar a promoção da igualdade étnico-racial como política pública, aos poucos ainda tímida e insuficientemente, tem tido importantes repercussões pedagógicas e vem influenciando vários segmentos, entre eles o mercado editorial. Nesse contexto social, a produção de literatura infanto-juvenil busca firmar-se com novas posturas e temáticas em relação às questões raciais.

O que há de novo e de bom no mercado editorial? Como saber? Como escolher livros? Com promover a leitura de livros de literatura com temática afro-brasileira em sala de aula, que aqui estamos chamando de afro-literatura? Este é um conjunto de questionamentos que devem estar presentes nos cursos de formação de professores, em todas as modalidades, instigando o redesenho de princípios e práticas para lidar com assuntos antes silenciados ou tratados de maneira danosa ou perversa.

Adiantamos que a tarefa em torno da leitura destes livros é dupla e concomitante: reconhecer e denunciar abordagens, textos e imagens que possam de alguma maneira desfavorecer a construção positiva da identidade da população negra e também identificar materiais, livros adequados, fomentando boas práticas de leitura, capazes de questionar e desconstruir mecanismos e práticas racistas e discriminatórias. Trata-se de construir e promover espaços voltados à eqüidade social e étnico-racial.

Nesse sentido, este artigo, reconhecendo que ainda há muito por fazer, indica alguns caminhos para a leitura, seleção e movimentação do acervo de afro-literatura e leitura em sala de aula.

Leitura, literatura e sociedade

Em uma sociedade como a nossa, na qual o acesso à cultura letrada é ao mesmo tempo valorizado e tão restrito à grande parte da população, a disseminação e o incentivo à leitura e escrita e ao uso da oralidade torna-se fundamental para a busca do exercício da cidadania, considerando-se o direito às diferenças.

Ressalta-se que a leitura deve ser entendida como prática social, ação múltipla realizada com diferentes objetivos, em diversos contextos e por meio de vários recursos que se entrecruzam incessantemente.

Pensar as práticas sociais de leitura como fonte e canal de informação e formação requer considerar a necessidade de articular o uso de diferentes tipos dos textos com temáticas em torno de aspectos comuns à vida dos educandos e educandas. Além disso este conhecimento precisa estabelecer relações entre esse aprendizado na sala de aula e o cotidiano, desafiando a pensá-lo como parte do processo educativo que acontece durante toda a vida do leitor.

Leitor é aquele que percebe a leitura, a escrita, a oralidade, a imagem e os gestos para entender o seu tempo, apreendendo, problematizando informações, intenções e propondo atitudes.

E o texto literário?

Afro-literatura - outros olhares sobre o texto literário

Texto literário é todo aquele que nos modifica, nos faz sair da cômoda posição de leitor para a de sujeito-leitor — que tem o direito de intervir no texto, caminhar por ele, invadi-lo. É aquela produção textual que nos instiga e arrebata, trazendo consigo a beleza inquietante de nos permitir criar, recriar e tecer outras significações a partir de sua tessitura.

A produção literária afro-brasileira possibilita aos seus leitores todos esses movimentos, além de provocar a necessária reflexão sobre as relações étnico-raciais na sociedade brasileira.

A afro-literatura brasileira poderia ser entendida/percebida, ainda, como aquela produção que:

* possui uma enunciação coletiva, ou seja, o eu que fala no texto traduz buscas de toda uma coletividade negra;

* propõe (e se propõe como) uma releitura da história de nosso país;

* traduz uma ressignificação da memória do povo negro brasileiro;

* realiza fissuras nos textos que representam o discurso hegemônico da nacionalidade brasileira;

* se caracteriza por um processo de reterritorização da linguagem, ocupando lugares e desmontando estereótipos;

* se configura como narrativa quilombola, porque realiza verdadeiras manobras de resistência: é pouco disseminada e sofre boicote de editores e distribuidores; no entanto, sua produção é constante e bem extensa.

* trabalho com esse novo padrão estético-étnico-racial e cultural pode ocorrer de modo paulatino, porém mostra-se eficaz.

Para a promoção desta leitura, deve-se construir o ambiente de leitura com todos os pormenores e cuidados que a atividade exige: dialogar com o texto, mesmo antes de abri-lo, criar “aquele” clima antes e ao apresentar o texto escolhido para a leitura; acrescentar informações pertinentes ao tema do livro escolhido por meio de vídeos, passeios, presença de artistas, autores, ilustradores e outras pessoas ligadas ao contexto de produção da obra a ser lida; promover roda de conversa acerca do título, especulando sobre seu conteúdo; apresentar as ilustrações; estabelecer alianças com professores (as) de outras disciplinas para um trabalho coletivo e interdisciplinar.

Há que se pensar na necessidade de cultivar olhares sensíveis para selecionar livros que abordem a cultura afro-brasileira. Nesse caso, há uma outra reflexão a se fazer: quais livros selecionar? É fato que, em geral, os livros mais divulgados, conhecidos e lidos são os que apresentam, ainda, maior nível de estereotipia, racionalização e propostas utilitárias que cumprem o papel de veicular ensinamentos, a fim de determinar o comporta-mento do leitor, reafirmando e/ou legitimando os preconceitos, as discriminações e as imagens caricaturizadas da população negra.

Para que o livro seja uma obra de referência, como a defendida neste artigo, não basta trazer personagens negras e abordagens sobre os preconceitos. É importante levar em consideração o modo como são trabalhados o texto e a ilustração.

A afro-literatura brasileira necessita ser lida pelo viés da contramão, ou seja, desvencilhando de olhares etnocêntricos, buscando nos sentidos possíveis da linguagem apresentada no texto, a beleza da oralidade escrita e do fazer lingüístico característico das temáticas e dos escritores de afro-literatura.

Quantas vezes já paramos para realizar um quadro comparativo entre a representação de personagens brancas e negras que aparecem nos livros ou então identificar preconceitos e estereótipos presentes nas obras?

Para construção/constituição de acervo que contemple a diversidade étnico-racial, os professores e demais profissionais envolvidos nessa escolha necessitam estar atentos aos materiais:

* que apresentem ilustrações positivas de personagens negras;

* cujos conteúdos remetam ao universo cultural africano e afro-brasileiro;

* que possibilitem aos leitores o acesso a obras onde habitem reis e rainhas negras, deuses africanos, bem como os mitos afro-brasileiros;

* cujas tessituras realizadas durante a leitura possam construir a elevação do aumento da auto-estima das crianças negras;

* que representem, sem estereótipos, a população negra brasileira;

Os profissionais envolvidos na escolha desse acervo devem também analisar a contribuição das obras estrangeiras em que aparecem essas personagens. Muitas obras, praticamente desconhecidas, rompem com a tradição da representação estereotipada das narrativas e ilustrações em relação à população negra.

Mais que livros na mão: compromisso com a valorização da diversidade

As políticas públicas parecem pretender avançar neste campo da leitura e da literatura por meio da distribuição de livros. Cabe intensificar ações mais comprometidas com o enfrentamento do desafio que é trazer para a sala de aula o universo cultural africano e afro-brasileiro.

Contudo, sabe-se que somente a distribuição de livros não garante a leitura, nem mesmo o acesso a eles. Para que o livro circule na sala de aula, e fora dela, depende também, e em grande parte, do grau de organização da unidade escolar - biblioteca funcionando, orienta-dores informados e responsáveis por ela, divulgação do acervo e dos temas dos livros, propostas interessantes a todos os envolvidos.

A formação de leitores compromissados com a valorização da diversidade, imprescinde da existência de professores, leitores, investigadores que sempre se perguntem uns aos outros: quais são as políticas públicas em curso? quais são os bons livros? quais são as editoras que têm contemplado positivamente a diversidade não apenas em relação a obras com personagens negras mas também em relação aos escritores, ilustradores e outros profissionais envolvidos na produção? como está a distribuição e circulação destes livros?

Finalizando, independente de seu pertencimento étnico-racial, todos e todas merecem ter acesso a obras literárias comprometidas com a promoção da igualdade das relações étnico-racial.


Referências
SOUSA, Andréia L. Nas tramas das imagens: um olhar sobre o imaginário da personagem negra na literatura infantil e juvenil. São Paulo, 2003. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo.

________. “O Exercício do Olhar: Etnocentrismo na Literatura Infanto-Juvenil”. In: SILVEIRA PORTO, Maria do Rosário et al. Negro, Educação e Multiculturalismo. São Paulo: Ed. Panorama, 2002.

________. Personagens Negros na Literatura Infantil e Juvenil. In: CAVALLEIRO (org.). Racismo e Anti-Racismo na Educação: repensando nossa escola. São Paulo: Summus, 2001.

SOUZA, A L. S. Negritude, Letramento e Uso Social da Oralidade. In: CAVALLEIRO, E. (org.). Racismo e Anti-Racismo na Educação: repensando nossa escola. São Paulo: Summus, 2001.

________ . Igualdade nas relações raciais - as leis fora do papel. Bolando Aula de História - Apoio para professores do Ensino Fundamental. Ano 7. n. 47 novembro de 2004. Gruhbas, São Paulo, 2004.

AUTORAS

Ana Lúcia Silva Souza é Doutoranda em Lingüística Aplicada - Unicamp/IEL. Integra a Associação Brasileira dos Pesquisadores Negros - ABPN - SP. Estuda as interfaces entre práticas de letramento, relações raciais e juventude. Organiza e assessora projetos relacionados leitura e dinamização de acervos. Assessora de Projetos da ONG Ação Educativa, Assessoria, Pesquisa e Informação. (analusilvasouza@uol.com.br)

Andréia Lisboa de Sousa é Fellow do Fundo Ryoichi Sasakawa, doutoranda pela Faculdade de Educação da USP, pesquisadora do Centro de Estudos do Imaginário, Cultura, análise de Grupos e Educação – CICE/FEUSP e Sub-Coordenadora de Políticas Educacionais da Coordenação Geral de Diversidade e Inclusão Educacional/SECAD/MEC. (souzaliz@yahoo.com.br)

Rosane de Almeida Pires é Mestre em Teoria da Literatura pela Faculdade de Letras da UFMG, professora da Educação de Jovens e adultos da Prefeitura de Belo Horizonte; compõe o Grupo de Educadoras Negras da Fundação Centro de Referência da Cultura Negra em Belo Horizonte FCRCN); sócia-proprietária da Sobá -livraria especializada em livros étnicos e cd´s alternativos. (rosane.pires@uol.com.br)

2 comentários:

POLO UAB SIMÕES FILHO disse...

Maravilha, são ações e produções como essta que contribuem pra a prática docente no tocante a Lei 10.639/03, valorizando,asiim o a diversidade na sala de aula.

Andreia V.

Sandra disse...

Excelente o Artigo. Contribuiu bastante para o estudo que pretendo desenvolver sobre como anda a contação de história com recorte étnico-racial na Educação Infantil, aqui em Recife.

SANDRA.